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O catador e seu cachorro

Eles sempre andavam juntos, mas eu nunca soube o nome deles. Um catador de papelão e seu cachorro. Sozinhos. Amigos.

Lembro-me de cruzar o caminho deles sempre às seis da tarde, e como sempre estavam lá, andando solitários, fazendo companhia um para o outro, nas iluminadas ruas de Moema.

Conhecidos no bairro, já não eram visitantes nas elegantes e arborizadas ruas do luxuoso bairro de Moema.

O dia inteiro ele recolhe papelão. Percebo que suas jornadas são longas, porque próximo ao final do dia, sempre, sua caçamba está lotada. Isso porque existe uma concorrência entre os catadores de São Paulo para se conseguir material reciclado.

O cachorro era seu segurança. Ele era o segurança do cachorro. Na verdade, acredito, eram a única família um do outro.

Nos últimos dias não havia mais cruzado no caminho deles, até que em uma manhã de quarta-feira fiquei sabendo, por amigos, que o cachorro havia sido atropelado. Não resistiu aos ferimentos e morreu.

A reação do seu dono era é mais profunda tristeza. Quem o viu relatou que reconheceu em suas lágrimas o mais paterno amor. Família. Amigos.

A partir dái, andava em uma tristeza só. Seu cachorro estava morto, e agora? Naõ sei, mas esse homem nas situações mais diversas encontrou em um cachorro o "ombro" de melhor amigo. Nele encontrou a amizade que a sociedade preferiu não dar.

Infelizmente, hoje, lamentei apenas as lágrimas desse homem. A tristeza. E assim percebi que ele era quase invísivel nas ruas. Preconceito ou acomodação?

Como disse, eu o via apenas às seis da tarde. Uma pena, porque demorei demais para perceber que não podemos fechar os olhos para quem vive ao nosso lado.

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